terça-feira, 7 de julho de 2009

Como assim vazio?



" Falar alto só para si, é um excitante intelectual, um devaneio dos solitários, sonho ou vingança. Tecem diálogos ao espelho as burguesinhas das vilas, fala o cego para o surdo sobre o mundo que os rodeia. Canta o galo capado, poucos o entendem. E poetas há, por essas secretarias e repartições, que vagueiam alta noite nas ruas da Baixa a esmiuçarem conversas de sua imaginação.

É natural. Vivemos numa época em que cada qual fala para si mesmo na companhia de muitos outros. "

O Anjo ancorado, José Cardoso Pires



Afastou os cortinados e num deslizar enferrujado descorreu a janela pelo caixilho de alumínio... por momentos, num daqueles instantes em que nos detemos hipnotizados em pormenores cujo grito é apenas reconhecido quando o silêncio é monesterial, ao observar os solavancos daquele deslizar, irritou-se quando pensou que aos pobres tudo se lhes estraga rápido "- Que raio, é como se os sacanas dos caixilhos tivessem consciência sócio-económica e só trabalhassem bem consoante quem por eles mais paga!" pensou... assomou à varanda e sentiu a tijoleira gelar-lhe a planta dos pés... a varanda era comprida mas vazia, cercada por um velho varandim onde torneadas bailarinas de ferro retorcido se detinham em pliés eternos... o céu rosa de fim de tarde que deixava adivinhar o sol quente do dia seguinte esvaneçera-se e agora, para além da lua, apenas as longínquas luzes do parque industrial que as suas dioptrias desfocavam em iluminações de natal resistiam ao breu da noite... Ora, como todos aqueles que solitários têm o azar de ter a consciência da sua solidão e cuja complexidade intelectual e emocional não permite não sentir o seu peso, pôs-se a tentar perceber, não porque razão se sentia vazio, pois esse esforço pressuporia a crença de que tal condição não lhe seria intrínsseca mas apenas ocasional e resoluvel, ideia que há já algum tempo havia abandonado, mas procurou antes definir que sensação era essa a de vazio... "- Como assim vazio?", perguntou-se... acendeu um cigarro, companhia de todos para os quais a quietude é tão insuportável como usual, o qual, enquanto procurava vizualizar, palpar esse vazio, se pôs a admirar na sua vida fugaz... distraído por momentos da sua busca metafísica atentou no som periclitante do tabaco em cada passa, pegou-o em frente do seu nariz e por olhos estrábicos observou como as cinzas se despiam da mortalha numa lenta e suave sensualidade virginal... o vazio, concluiu então para si, é uma reacção interior onde se dá uma irritação do diafragma, gerando uma ansiedade intelectual à qual, num instinto de homeostase é atribuído um significado, ou seja, a rotulação dessa mesma sensação cuja génese a tradição empírica exige tenha uma causa, o que dificulta a aceitação paciente e consciente da mesma, favorecendo o indesejado estado ansiogénico aumentado pela progressivamente desesperada busca dessa suposta causa... normalmente, e uma vez que a ruminação é inócua, opta-se por uma selecção atabalhoada de um bode-expiatório transformado em causa do vazio, compreensão ilusória que o faz diminuir, já que o vazio é nada mais nada menos que o desconhecimento daquilo que nos faz felizes e cuja génese, talvez por preguiça, limitação, fraqueza, nunca é procurado no interior, mas sempre no exterior... apagou o cigarro, recolheu-se para o quarto, correu os estores, deitou-se consigo e adormeceu.


2 comentários:

messy disse...

consigo imaginar tudo o que escreves, gosto disso (:

eu às vezes, nem a falar para mim, me entendo!

***

CinammonGirl disse...

tu nao me digas que agora te deu para fumar. Diz antes que e apenas uma experiencia fotografica boiola que decidiste explorar:P f**** tu atina-me joao lampreia. Cardoso Pires, um dos meus escritores de eleicao. Ja leste o "Livro De Bordo"?....fica a sugestao. beijo da piiiiiiiiiiiinn