quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

tic... tic... tic...

Tic... tic...tic... ouço com maior nitidez regressando de dentro de mim à medida que acordo lentamente do meu sono de montanha e me espreguiço num movimento de acordeão... juro que um exército acampou no meu lombo de tão lixado que estou das costas... aos poucos dezenas de feixes de luz, invasores ultra-violeta entram furtivamente por entre as frechas dos estores amornando-me o rosto descaído e excitando-me as retinas que num espasmo me fazem caír as pálpebras para se protegerem, reabrindo-as então lentamente e com tempo para se reabituarem à luz... tic... tic... tic... no mesmo ritual de sempre desde que á já vai para 2 meses te mudaste para esta cama, arrastando-me para esta cadeira, procuro às apalpadelas irreflectidas com pressas de aranhiço o meu maço de tabaco, recordando-me da minha velhota tonta que sempre que me queria chamar só acertava no meu nome depois de gritar primeiro pelos dos meus dois irmãos... acendo um cigarro, iço-me do cadeirão e desfraldo os estores procurando encenar a coragem de um comandante que se faz ao mar e engolir a vida que agora entra pela janela... tic... tic... tic... quantas cores há no mundo e qual o som da vida? Foi á uma semana a ultima vez que te ouvi... o doutor diz para não perder a esperança mas eu estou derrotado... estou cansado de falar para as flores de plástico por cima da mesa de cabeceira, farto de ler o mundo impresso todas as manhãs e de saber que ele continua e roda e que tudo lá fora te ignora... tic... tic... tic... farto de passar horas a olhar para a merda deste ecrã onde não passas de uma maldita linha verde que desenha chapéus pontiagudos de duende na angustia de saber que tudo o que és se resume hoje a um tic, um caír de agulha que me rouba o fôlego se o outro tic demorar e que é hoje o unico som que existe na minha vida... tic... tic... tic... desculpa... vou lá a baixo ao quiosque comprar o jornal e venho num pulo pois sempre gostaste de saber as notícias e vou insistindo, nunca se sabe talvez que a minha voz consiga penetrar esse teu casulo... tic... tic... tic...

15 minutos depois...

Olha encontrei agora o doutor e ele diz que foi encontrado um dador compativel e há uma esperan... tuuuuuuuuuuuuuuuuu...

4 comentários:

a gi* disse...

:O

Fantástico!

Adoro a tua escrita, mesmo mesmo*

pandora disse...

gostei!
mas será que já não se fazem finais felizes?

Henry Michkin disse...

lol prometo que da próxima vou tentar... acho que sempre associei os finais felizes aos contos da Disney e como dizem os teóricos do desenvolvimento, a caminhada para a adultícia é feita de ganhos e perdas, mas as ultimas parecem pesar sempre mais que as primeiras.Uma tristeza lol... ;P

pandora disse...

eu estou é a ver que me devia ter sentado ao teu lado na freq! :P