quarta-feira, 5 de maio de 2010

… desfeitos

 

… continuação

desfeitos

 

10 anos depois…

E nessa altura já tudo nele negava a vida… “Há uma altura na vida em que é forçoso escolher – ou o sonho ou a vida prática” e eu compreendia a sua revolta ao arremessar a porta… esperava sempre e ainda hoje que ali, pelo menos ali, a realidade não entrásse, que o seu mundo sonhado sobre ele caísse como um véu apolíneo. Mas a realidade é uma velha gorda e verruguenta de avental que sacode as ilusões como poeira e com esgares de nojo e autoridade enxota os sonhos como ratos… e ou nos acomodamos ou lhe tentamos fugir. O meu pai havia então encontrado o seu pequeno globo de neve, mas neste, em lugar de confettis, um desvario de bolhas ascendentes numa fuga de cevada que engolia pelo gargalo e lhe subvertia os nervos…

Ele à porta da casa de banho com as calças pelos tornozelos

- Cuidem da vossa mãe, é o melhor que têm na vida

a esbracejar sem nexo com o sal das lágrimas a gretar-lhe os lábios gelados da cerveja, com a camisa aberta, mostruário de flanela exibindo um velho casco de costelas, pregas de carne, pelos grisalhos e uma ascíte aguda… eu no beliche a espreitar por cima da tábua que só me deixava ver meio pai enquanto o mais novo a puxar-lhe as calças para cima

- Vá lá pai

e eu a perceber-lhe no tremer da voz que não calças mas a tentar erguer um pai

- Por favor pai

a partir do nada, peça a peça como se ele uma das suas torres de lego que na altura dos sonhos acreditava ser capaz de elevar aos céus, mas que ao sentir a comichão a realidade e as suas leis faziam tombar…

O mais velho no beliche por baixo do meu, ele que já na altura alheado, nunca por  frieza mas por sobreexaltação sináptica, sempre suspenso num olhar espantado e absorto de astronauta e a perguntar-se como o Raul Brandão “Terá toda a gente esta mesma luta consigo para se acostumar a viver? Que mal excepcional é este de viver? E porque é que tanta criatura que sofre crava as unhas desesperadas na vida, sem a querer largar?”

Eu a afundar-me na almofada e a perder de vista a metade que restava do meu pai, a perguntar para o tecto do rés-do-chão, porque se desfez o teu abraço? Quando é que deixámos de caber no teu peito? Como foi que secáste?

domingo, 2 de maio de 2010

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O que são velhos?


A seguinte conversa entre duas idosas teve lugar no autocarro 11 de tarde, mesmo antes de passarem para o tópico seguinte: calos

- O que são velhos?
- Oh são trapos velhos que não servem para nada.
- Fique sabendo que a partir de trapos velhos também se fazem coisas muito bonitas.


ps. já agora, e em relação aos calos, para quem estiver interessado, uma destas senhoras disse que enrolar casca de banana em volta do dedo afectado faz maravilhas.

Abraços...








Lembro-me dele chegar a casa e

- Meninos venham cá.

O mais novo como uma seta, num passo pouco ponderado, sempre numa ânsia de primeiro… mesmo quando a minha mãe “- A sopa está na mesa”, que ele tanto odiava, sempre primeiro… iniciamos a vida com esse instinto, correr e depois pensar… a idade encarrega-se de nos abrandar o passo e a coragem até que quilómetros na cabeça e as pernas imóveis.

Da pasta tirou um pequeno globo, uma cúpula de vidro enclausurava uma família em miniatura… apesar de presos percebi que felizes porque na cara todos eles um traço côncavo e não convexo… ao seu lado um boneco de neve com um sorriso de botões e uma cenoura espetada no centro da face gelada (não gelada porque apenas um faz de conta).

Agitou e então um nevão de confettis invadiu a pequena redoma...

O mais pequeno curioso

- E se eles quiserem saír daí?

E o meu pai com reflexos de confettis nas pupilas a responder

- Não vão querer, estão felizes.

E não queriam, como o seu sorriso eterno denunciava...

E então o meu pai enlaçou-nos aos três, desafiando-nos a escapar … o mais velho sozinho não conseguia desatar a ponta esquerda, enquanto eu e o mais novo no flanco direito impotentes, ao ponto do pequeno recorrer a cócegas, que é como se sabe a forma de tocar piano numa pessoa.

E hoje confesso-te meu pequeno parceiro que fazia batota, pois que eu apenas num esforço simulado… a não querer que aquele laço se quebrásse nunca pois que aquela a nossa cúpula, o nosso pequeno mundo de faz de conta onde todos nós também um traço convexo na face e gargalhadas esvoaçantes como confettis…

continua...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A nossa arte. A não perder!






" É necessário redefinir progresso. Progresso é sentirmo-nos bem. "



quarta-feira, 7 de abril de 2010

Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida



Erasmus 2010/2011







I wanna tell you my secret now...



I see dumb people... walking around like regular people. They don´t know they´re dumb... they just see what they want to see.