sexta-feira, 17 de julho de 2009

Somebodies!

E um pouco no seguimento do que Bertrand Russel diz, apetece-me iniciar uma pequena rubrica, para relembrar e enaltecer precisamente aqueles cujo interesse sincero nos elementos do seu trabalho os levou ao êxito e para os quais a adulação parece sempre ser e ter sido uma consequência dessa sua genuinidade e nunca o seu fim último.

E porque ontem o pude rever em Belém, é ele o primeiro dos "Somebodies"!, rúbrica onde apesar do título estrangeiro escolhi dedicar "apenas" aos nossos maiores nomes.



Jorge Palma


We´re the nobodies... wanna be somebodies...



"Um narcisista inspirado, por exemplo, nas homenagens que recebem os grandes pintores, pode tornar-se estudante de arte, mas como a pintura é para ele apenas o meio de atingir um fim, a sua técnica nunca terá nada de interessante e os seus temas hão-de enfermar também da vaidade que o possui. O resultado é a derrota e o desapontamento com o ridículo em vez da esperada adulação. O mesmo se aplica àquelas romancistas em cujos romances aparece sempre como heroína, a imagem idealizada delas próprias. O verdadeiro êxito no trabalho depende sobretudo do interesse sincero posto nos elementos com que esse trabalho é realizado. "

A Conquista da Felicidade, Bertrand Russel

terça-feira, 7 de julho de 2009

Como assim vazio?



" Falar alto só para si, é um excitante intelectual, um devaneio dos solitários, sonho ou vingança. Tecem diálogos ao espelho as burguesinhas das vilas, fala o cego para o surdo sobre o mundo que os rodeia. Canta o galo capado, poucos o entendem. E poetas há, por essas secretarias e repartições, que vagueiam alta noite nas ruas da Baixa a esmiuçarem conversas de sua imaginação.

É natural. Vivemos numa época em que cada qual fala para si mesmo na companhia de muitos outros. "

O Anjo ancorado, José Cardoso Pires



Afastou os cortinados e num deslizar enferrujado descorreu a janela pelo caixilho de alumínio... por momentos, num daqueles instantes em que nos detemos hipnotizados em pormenores cujo grito é apenas reconhecido quando o silêncio é monesterial, ao observar os solavancos daquele deslizar, irritou-se quando pensou que aos pobres tudo se lhes estraga rápido "- Que raio, é como se os sacanas dos caixilhos tivessem consciência sócio-económica e só trabalhassem bem consoante quem por eles mais paga!" pensou... assomou à varanda e sentiu a tijoleira gelar-lhe a planta dos pés... a varanda era comprida mas vazia, cercada por um velho varandim onde torneadas bailarinas de ferro retorcido se detinham em pliés eternos... o céu rosa de fim de tarde que deixava adivinhar o sol quente do dia seguinte esvaneçera-se e agora, para além da lua, apenas as longínquas luzes do parque industrial que as suas dioptrias desfocavam em iluminações de natal resistiam ao breu da noite... Ora, como todos aqueles que solitários têm o azar de ter a consciência da sua solidão e cuja complexidade intelectual e emocional não permite não sentir o seu peso, pôs-se a tentar perceber, não porque razão se sentia vazio, pois esse esforço pressuporia a crença de que tal condição não lhe seria intrínsseca mas apenas ocasional e resoluvel, ideia que há já algum tempo havia abandonado, mas procurou antes definir que sensação era essa a de vazio... "- Como assim vazio?", perguntou-se... acendeu um cigarro, companhia de todos para os quais a quietude é tão insuportável como usual, o qual, enquanto procurava vizualizar, palpar esse vazio, se pôs a admirar na sua vida fugaz... distraído por momentos da sua busca metafísica atentou no som periclitante do tabaco em cada passa, pegou-o em frente do seu nariz e por olhos estrábicos observou como as cinzas se despiam da mortalha numa lenta e suave sensualidade virginal... o vazio, concluiu então para si, é uma reacção interior onde se dá uma irritação do diafragma, gerando uma ansiedade intelectual à qual, num instinto de homeostase é atribuído um significado, ou seja, a rotulação dessa mesma sensação cuja génese a tradição empírica exige tenha uma causa, o que dificulta a aceitação paciente e consciente da mesma, favorecendo o indesejado estado ansiogénico aumentado pela progressivamente desesperada busca dessa suposta causa... normalmente, e uma vez que a ruminação é inócua, opta-se por uma selecção atabalhoada de um bode-expiatório transformado em causa do vazio, compreensão ilusória que o faz diminuir, já que o vazio é nada mais nada menos que o desconhecimento daquilo que nos faz felizes e cuja génese, talvez por preguiça, limitação, fraqueza, nunca é procurado no interior, mas sempre no exterior... apagou o cigarro, recolheu-se para o quarto, correu os estores, deitou-se consigo e adormeceu.


sexta-feira, 26 de junho de 2009

R. I. P.



Michael Jackson " The King of Pop "
(1958 - 2009)


sábado, 20 de junho de 2009

A Loucura...



" A psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade da psicologia "

Michel Foucault

sábado, 13 de junho de 2009

Porque hoje em dia sentir parece que está "Out"...


" Parece-me que os clientes que demonstram maior mudança em terapia são os que vivem os seus sentimentos de dor mais intimamente, mas também os que experienciam mais vividamente os seus sentimentos de euforia; aqueles em que a raiva é sentida de forma mais clara, mas o mesmo acontece com o amor; aqueles que conhecem o medo de modo mais profundo, mas igualmente a coragem ".


Carl Rogers

terça-feira, 9 de junho de 2009

O meu avô da montanha

Lembro-me de ti avô...

de te esperar num alegre entusiasmo de pardal, escoltado por azinheiras e eucaliptos da altura dos sonhos... lembro-me de ler bandas-desenhadas de algodão nas páginas azuis do céu enquanto tu picaretavas as entranhas da terra... recordo o cheiro do pão cozido a lenha e das sopas de café da avó, do aroma primaveril dos um-dó-li-tá das filhas da Ti Cegonha e de inalar um exército de girassóis enquanto tu agredido por suores e vapores de monstro que te agrilhoavam os pulmões... eu em acenos de adeus ao sol laranja que já se derretia nas águas calmas da tapada e tu a surgir bem lá ao fundo, numa silhueta de soldadinho de chumbo, depois do alarme berrar as sete, trazendo sempre em ti um pouco da montanha... eu que te chamava o meu avô da montanha, que sempre julguei que lá vivias, quando cada vez mais era ela a habitar-te, quando cada vez mais te apodrecia por dentro... a montanha que te roubou uma mão e eu a chorar no teu colo e a perguntar

- Dói muito avô?
- Meu querido, a dor é apenas uma opinião do espírito que o avô aprendeu a ignorar...


Mas a montanha que tu enfraquecias por tuneis de térmitas não te perdoou e crescia em ti desalojando o oxigénio dos teus brônquios de luto e atirando-te para uma cadeira de rodas...

E um dia a montanha venceu o meu avô... nesse dia eu nascia na Alfredo da Costa encadeado pelo brilhante esmalte da minha mãe enquanto no Alentejo os chaparros choravam resina pelo meu avô da montanha... que não conheci mas nunca esqueci... porque tal como a dor é apenas uma opinião do espírito, a morte não passa dum grande sermão... e o meu avô nunca foi em conversas de chacha.