sábado, 25 de outubro de 2008

A Sociedade Chiclete


E como tudo o que é coisa que promete
A gente vê como uma chiclete
Que se prova, mastiga e deita fora, sem demora
Como esta música é produto acabado
Da sociedade de consumo imediato
Como tudo o que se promete nesta vida, chiclete

Chiclete, aua aua aua aua aua ah!
aua aua aua aua aua ah! (chiclete)

E nesta altura e com muita inquietação
Faço um reparo e quero abrir uma excepção
Um casse-tete nunca será não, chiclete
Pra que tudo continue sem parar
Fundamental levar a vida a dançar
Nesta vida que tanto promete, chiclete

Chiclete, aua aua aua aua aua ah!
aua aua aua aua aua ah! (chiclete)

E como tudo o que é coisa que promete
A gente vê como uma chiclete
Que se prova, mastiga e deita fora, sem demora
Como esta música é produto acabado
Da sociedade de consumo imediato
Como tudo o que se promete nesta vida, chiclete

Chiclete, aua aua aua aua aua ah!
aua aua aua aua aua ah! (chiclete)

Chiclete
chiclete (x4)

Chiclete (prova)
Chiclete (mastiga)
Chiclete (deita fora)
Chiclete (sem demora) (x...)

(...chi-chi-chi, chi-chi-chi, chiclete)


Chiclete, Taxi


sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Pensamento...


É irónico!

... a rapidez com que passamos de um " vem-me foder! "

... para um " vai-te foder! "

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

M...


Naquela manhã éramos eu e tu, personagens centrais num enredo que ainda não sabíamos nas suas cenas finais.
Na ultima noite usaste o soutien branco, sarapintado de bolas pretas, apoio dalmático, discretamente torneado por pequenas pétalas de renda negra, que embalava os teus seios quando as minhas mãos se ausentavam... acordavas sempre com uma imensa fome de Universo, vingando-te no pequeno-almoço... recordo cada detalhe... irritava-me a tua boa disposição matinal, enquanto eu, no outro prato da balança, acordava com exércitos a marcharem por cima de mim... a tua refeição colorida, leve... e enquanto me voltavas a chatear com a merda do meu colesterol, chacinavas no espremedor três ou quatro laranjas, invadias o frasco de compota e alcatroavas de doce uma torrada, comias uma ou duas bolachas orfãs de sabor e para o caminho um iogurte natural, que acomodavas na tua bolsa, perdido entre chaves, batons, cremes hidratantes, recibos, telemóvel... que raio, há sempre demasiada tralha na vida de uma mulher! Cabeça, bolsa e coração, armazéns do Martim Moniz, mas onde nada se vende a retalho e onde tudo sai, mais cedo ou mais tarde, demasiado caro a quem lá compra. E eu ali, sentado na mesa, intenção de mim, encurvado sobre uma chávena de café, despejando um pacote de açucar, que se detem instantes á tona, doce Atlantis afogada num mar nervoso de negro vício, eu ali com a lassidão de um cão velho em final de vida que se deixa ficar, observando o teu bailado das 8h... Naquela noite, depois dos nossos corpos se saciarem, um vazio profundo me revelou todo o descabimento, a falta de nexo de todo o acto, daquele "nós", e passei o resto da noite a magicar maneiras de te mandar para a puta que te pariu, mas com uma candura tal, porque todo o homem é cobarde nestas alturas, que sentísses ser também tua a minha vontade de partir...
Aguardei então a tua saída, despediste-te de mim com um beijo na testa, " amor, mais logo faço-te umas pataniscas com arroz de cenoura para o jantar, como tu tanto gostas ", porque eu merecia, disséste tu... Mas a vontade que tinha de me pirar dali, de ti, era forte demais para se comover, nem hesitei e peguei logo uma folha de papel, seria ali que me iria despedir... sem vergonha, sem coragem, com todos os clichés e truques do politicamente correcto, todos os "não és tu, sou eu", "mereces melhor que uma carcaça velha", "preciso de um tempo só para mim" e mesmo um "não tarda nada arranjas outro que te fará feliz vais ver"... as razões eram todas e nenhuma... mas sempre fui pragmático nestas coisas, sofre-se o que tem de se sofrer e parte-se para a próxima, não há que arrastar, há que desaparecer... não gosto do que é situado, contextualizado, relativo, declarações de que se está em todo o lado não estando em lado nenhum... longe da vista longe do coração, e não se gosta por obrigação... com o polegar premi a mola da caneta, cavilha da granada que explodiria sobre ti, e comecei a escrever... de repente, senti um pequeno formigueiro percorrer-me o braço... dúvidas? Esitação? Incertezas?... a uma dormência cada vez mais intensa acompanhou então a minha respiração que surgia agora entrecortada, esforçada e profunda como um ataque de ansiedade, cada vez mais sufocante... "Não!!", gritei já eu a caminho do chão, onde a chávena de café já se estilhaçava, adivinhando o ataque fulminante que fez explodir o meu peito... mais tarde consegui-me levantar... mas já não por mim, já amortalhado em panos, antes de me ensacarem de preto e enfiarem num gavetão...
Foste tu quem me descubriu ali estatelado a contemplar o tecto de olhos vítreos... morto mas ainda senti o pânico, a tua desorientação... na carta que ainda estava por cima da mesa leste:



" Minha querida, têm sido tão bons estes tempos que temos passado juntos, és uma mulher fantástica e sei que tenho sorte por te ter comigo, por me quereres a teu lado. Nunca fui de me manter quieto por muito tempo, nunca consegui viver para ninguém senão para mim, e contigo consegui perceber o que é isto a que chamam de partilha, dedicação... M... "



Quis o meu fado que aquele "M" permanecesse isolado, sem o "as" que o completaria... e quis uma coincidência que o dia seguinte fosse 14 de Fevereiro... e eis como uma carta de despedida, que sem o "Mas", se transformou ali, para ela e para sempre, numa carta para o dia dos Namorados... Ela nunca me esqueceu... não voltou a apaixonar-se... e ainda hoje, quando ouço os seus passos aproximarem-se da minha eterna morada de mármore onde me vem chorar, ainda que morto, o meu coração sangra de culpa...




terça-feira, 21 de outubro de 2008

A Mulher por... Salvador Dali

Sim, meu amor, está bem meu amor
Eu sei que tu tens razão
Dizia-te eu, às vezes, para acabar
Com a discussão…

E lá íamos vivendo,
Entre dois copos e um bom colchão,
Um futuro à nossa frente
E muito amor para mostrar a toda a gente.

Como era bem vivermos a dois
Sem nos darmos mal (uma canção estrangeira e um filme antigo no telejornal),
E uma noite tu disseste: Já dei p’ra ti meu… vou arrancar!
E lá fiquei eu, sózinho,
A conversar com os meus botões
E a tentar descobrir a causa
Que nos levou a tal situação…
Já achei uma ideia que é bem capaz
De ser a solução:
Acho que nós passamos muito tempo
A misturar tripas com coração
E a verdade é bem diferente.
Para haver amor, não pode haver obrigação
Obrigação, Jorge Palma

Canibalismo de Outono (1937)

Dali, Salvador (Espanha)

sábado, 18 de outubro de 2008

É isto um Coullant de Chocolate




Uma boa companhia, uma boa conversa, um chá quente e um coullant de chocolate... c´est trés magnifique!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Ouvi dizer

Porque é das melhores coisas que já ouvi em português...


Ouvi Dizer

Ouvi dizer que o nosso amor acabou.
Pois eu não tive a noção do seu fim!
Pelo que eu já tentei,Eu não vou vê-lo em mim:
Se eu não tive a noção de ver nascer um homem.
E ao que eu vejo,
Tudo foi para ti
Uma estúpida canção que só eu ouvi!
E eu fiquei com tanto para dar!
E agora
Não vais achar nada bem
Que eu pague a conta em raiva!
E pudesse eu pagar de outra forma!

Ouvi dizer que o mundo acaba amanhã,
E eu tinha tantos planos pra depois!
Fui eu quem virou as páginas
Na pressa de chegar até nós;
Sem tirar das palavras seu cruel sentido!
Sobre a razão estar cega:
Resta-me apenas uma razão,
Um dia vais ser tu
E um homem como tu;
Como eu não fui;
Um dia vou-te ouvir dizer:
E pudesse eu pagar de outra forma!
Sei que um dia vais dizer:
E pudesse eu pagar de outra forma!

A cidade está deserta,
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte:
Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas.
Em todo o lado essa palavra
Repetida ao expoente da loucura!
Ora amarga! Ora doce!
Para nos lembrar que o amor é uma doença,
Quando nele julgamos ver a nossa cura!
Ornatos Violeta

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A Mulher por... John Kacere

Jutta (1973)
Kacere, John (Estados Unidos)



" ... não ía desperdiçar aquela chance de me exercitar nas finas artes de feiticeiro, por isso a coisa foi assim: surgiram, em combustão, gotas de gordura nos metais das minhas faces, meu rosto começou a transmudar-se, primeiro a casca dos meus olhos, logo depois a massa obscena da boca, num instante eu era o canalha da cama, e eu li na chama dos seus olhos «sim, você canalha é que eu amo», e sempre atento aos sinais da sua carne eu passei então a usar a língua, muda e coleante, capaz sozinha das posturas mais inconcebíveis, e não demorou ela mexeu os lábios de um jeito mole e disse um «sacana» bem dúbio, era preciso conhecer de perto a sua boca pra saber o que ela tinha dito, e era preciso conhecer essa femeazinha de várias telhas para saber que sugestão, eu fiz de conta que tinha esquecido tudo e que o mundo agora só tinha aquele apertado metro de diametro, continuei o canalha da cama e ela dum jeito mais quente tornou a dizer «sacana», que era o mesmo que dizer «me convida pra deitar na grama», ela que nos arroubos de bucolismo me pedia sempre pra trepar no mato, daí que furjei uma víbora no músculo viscoso da língua, e conformei-lhe cabeça, e uma sórdida altivez, «an» «an» «an» eu disse mexendo a ponta devassa, «sacana sacana» ela disse numa entrega hipnótica, já entrando quem sabe em estado de graça, mantendo contudo as narinas plenas, uma respiração ruidosa tumultuando o colo, os peitos empinados subindo e descendo as penas todas do corpo mobilizadas, tanto fazia dizer no caso que a ave já tinha o vôo pronto, ou que a ave tinha antes as asas arriadas, e foi pra melar inda mais o desejo dela que levei a mão bem perto do seu rosto, e comecei com meu dedo do meio a roçar o seu lábio de baixo, e foi primeiro uma tremura, e foi depois uma queimadura intensa, sua boca foi se abrindo aos poucos pr´um desempenho perfeito, e começamos a nos dizer coisas através dos olhos ( essa linguagem que eu também ensinei a ela ), e atento na sua boca, que eu fazia fingir como se fosse, eu estava dizendo claramente com os olhos «você nunca tinha imaginado antes que tivesse no teu corpo um lugar tão certo pr´esse meu dedo enquanto eu te varava e você gemia» e logo seus olhos me responderam num grito «sacana sacana sacana» como se dissessem «me rasga me sangra me pisa», e senti a ponta da sua língua tocando a ponta do meu dedo, lambendo furtiva minha unha, e senti seus dentes, que já tinham perdido o corte, mordiscando a polpa úmida, ela mamava sôfrega a minha isca, e a gente se olhava, e vazava visgo das suas pupilas, e era o mesmo que eu estar ouvindo o que ela tinha dito antes tantas vezes dum jeito ambivalente «não conheci ninguém que trabalhasse como você, você é sem dúvida o melhor artesão do meu corpo», por isso continuei modelando a lascívia em sua boca, e logo depois desci a mão no gesso quente do pescoço, e não demorou seus poros de ventosa me engoliam gulosamente os dedos e foi com a boca imunda que eu disse num vento súbito «estou descalço» e vi então que um virulento desespero tomava conta dela, mas eu sem pressa fui dizendo «estou sem meias e sem sapatos, os meus pés como sempre estão limpos e úmidos» e eu de repente ouvi dos seus olhos um alucinado grito de socorro «larga logo em cima de mim todos os teus demônios, é só com eles que eu alcanço o gozo»... "


Raduan Nassar, Um Copo de Cólera