quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Conhecer o preço desconhecendo o valor

" De tudo aquilo que foi anteriormente explicado, surge uma conclusão bastante clara: O homem light vive instalado na atalaia do cinismo. Tornou-se pragmático e uma coisa é o que pensa e outra, bem distinta, é o que faz. Oscar Wilde definiu-o assim: «Aquele que conhece o preço de todas as coisas e o valor de nenhuma». O cínico está cheio de contradições; o que hoje se crítica apaixonadamente, amanhã defende-se com ardor; o importante é o momento, o instante concreto do tema que nos ocupa. Porém nada é definitivo e há que apontar o vencedor porque o importante é o êxito e o triunfo: é o cúmulo da fugacidade, a revolução da urgência.
Vivemos na era dos anti-heróis, dos videoclips, na qual o plástico é o sinal dos tempos: usar e deitar fora; o modelo do yuppie substitui os velhos ideais revolucionários. Praticamos a moral do pragmatismo. Uma pessoa assim torna-se fria, sarcástica, maniqueísta e, quiçá, algo maquiavélica e insensível; é um desavergonhado que age duma forma descarada e adorna a sua conduta com uma linguagem floreada que há que decifrar.
É a mística do nada. Ao produzir-se a perda de todas as referências, esta é uma das suas consequências. "

O homem light - Uma vida sem valores,
Enrique Rojas

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Altos e baixos na vida de um gato preto...


- Quando sinto esperança...

Gostava de te dizer que o atum não sabe a azedo
Que contínuo a pular oceanos de telhas sem medo
Que entre nós nunca haverá nenhum segredo
Gostava de te dizer que não se avista fim no nosso enredo...

- Quando sinto nostalgia...

Gostava de te dizer que contínuo a ver contigo a Lua no topo do telhado
Que o meu preto e o teu branco fazem um malhado
Que cada ponta do novelo encontra um e outro de cada lado
Gostava de te dizer que o futuro de cada um será do outro um dia o passado...

- Quando eriço de raiva!

Gostava de te dizer que não me lembra de ti o branco leite na minha gamela!
Que não é por ti que espero no parapeito da janela!
Que sem ti não perdi o gozo de irritar cão ou cadela!
Gostava de te dizer que o meu olho felino não verte saudade no escuro da viela!

- Quando espeto as garras e arranho o cortinado!

Gostava de te dizer que me sabe melhor não dividir a espinha!
Que prefiro o meu carapau de escabexe ao teu frito em capa de farinha!
Que brilha mais que o teu o pelo persa da gata da vizinha!
Gostava de te dizer que sem ti sou tigre e tu uma medrosa gatinha!

- Quando a realidade me puxa pela pata...

Sou um simples gato preto...
Agora sem ti, mas cá me aguento...
A diferença é que contigo conseguia!
Aquilo que agora só a custo tento...

A Mulher por... Jenny Saville

"Não há mulher, por mais feia que seja, que não tenha um traço de beleza "

Ovídio








Propped, 1992
Saville, Jenny (Inglaterra)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

E também...

Ontem, enquanto jogava apercebi-me: " Is it just me, or is there something really sexy about a girl that knows how to shoot some serious pool? "

domingo, 14 de setembro de 2008

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O amor é fodido... por nós!

" O que é amar alguém? O que significa? Amar outra pessoa é desejar-lhe o melhor, olhar por ela, tratá-la de forma excepcional, dar-lhe o melhor de nós mesmos. O que inicialmente atrai é a aparência física, a beleza, que logo se torna psicológica e espiritual. Em geral, podemos afirmar que o amor baseado e centrado na beleza física costuma ter um mau prognóstico. Com ele não se chega muito longe; por isso, no enamoramento, o sentimento essencial é «Necessito de ti», «És para mim fundamento de vida», «És o meu projecto». Dito em termos coloquiais: «És a minha vida». Maurice Blondel define assim o amor: «L´amour est par excellence ce qui fait être», «o amor é antes de mais aquilo que faz ser».
O que o homem necessita na vida é amor, amar e ser amado. A felicidade não é possível sem o amor. Amar outra pessoa é querer a sua liberdade, que se aproxime o mais possivel dela, quer dizer, do bem. Essa é a sua grande meta. Ajudar a outra pessoa a transcender-se, ajudá-la a exteriorizar tudo, a que esteja contente e feliz com a sua existência. "


...


" ... na relação sexual sem amor autêntico o outro é um objecto de prazer. Não se procura o bem do outro, mas o prazer com ele. Sob nenhum aspecto se pode denominar isto como amor verdadeiro porque utilizamos e instrumentalizamos uma pessoa «querida» para satisfazer o nosso prazer. Neste tipo de relação a pessoa que utiliza o outro é ególatra e só persegue a sua própria satisfação; nunca há um encontro verdadeiro entre um eu e um tu, mas tão somente uma união sem vínculos.
Há que construir uma nova pedagogia do amor, partindo da própria pessoa e não do prazer sexual anteposto ao amor. Foi precisamente esta adulteração dos termos que nos conduziu a um consumo de sexo, o qual se afasta do sentido profundo do encontro amoroso. O partenaire nas relações sexuais não tem importância como pessoa, mas só como físico. Aquele que unicamente olha ao sexo não necessita de outra pessoa enquanto pessoa, só deseja tirar proveito dela. Esta relação converte-se em algo pobre, hedonista, egoísta... O comércio sexual indiscriminado afasta o homem da mulher, porque nele se produz um contacto superficial, trivial, débil e insignificante. Não são válidos os argumentos estatísticos de «Isto quase toda a gente o faz», «A vida hoje é assim» ou «Estes são os tempos que correm», para que duas pessoas se entreguem intimamente sem amor, porque tudo se desvirtua. Daí que aquilo que se consegue sem esforço e sem compromisso não seja apreciado, perca o seu valor e, a longo prazo, até o seu atractivo.
A sexualidade sem amor autêntico conduz a um vazio gradual que desemboca em fastio, indiferença e cepticismo, quer dizer, uma atitude descomprometida em excesso. Às vezes podemos até, graças a um espírito crítico, descobrir na sua base notas autodestrutivas."


...



" Assistimos hoje em dia a uma idolatria do sexo. Os meios de comunicação e, em especial, o cinema e a televisão, serviram-no-lo de bandeja. Há sexo por todo o lado, sem afectividade nem amor, apenas como um itinerário serpenteante, divertido e turbulento, no qual se misturam valores como a conquista, a busca do prazer e o desfrutamento sem restrições. Os meios de comunicação prometem a libertação e o encontro consigo mesmo em paraísos de sensações maravilhosas: sexo sem fim, diversão, jogo caprichoso. Assim se pretende enganar e convencer o homem de que sexo e amor significam o mesmo, de que praticar o sexo é interessante, sem ser necessário propôr-se mais nada. Tudo desde um ponto de vista materialista e desumanizado.
Vivemos numa época confusa quanto a este aspecto, já que perdidos os pontos de referência, uma vez que os valores se perderam, tudo se torna relativo, descendo nós pela rampa do subjectivismo e do egocentrismo, numa palavra: egoísmo. Cada um tem um código particular de valores em que se deixa de chamar às coisas pelos seus nomes. Chega-se assim a um amor rebotalho: tudo a baixo preço, ligeiro, light, sem conteúdo, insubstancial, sem rumo; uma relação anónima, indifrente, passageira, que se leva a cabo de forma animal e primária na primeira oportunidade que surge. Numa palavra: sexualidade sem importância, sem intresse, desvalorizada, carente de autêntica intimidade, na qual não existe amor - ainda que este termo se adultere e utilize indevidamente - , mas sim encontros físicos para desfrutar reciprocamente e nos quais acontece utilização mútua. Contudo, o amor verdadeiro torna o homem mais humano, transforma o seu passado e ilumina o seu porvir; é uma síntese de ingredientes físicos, psicológicos e espirituais. Com o amor verdadeiro somos mais donos de nós mesmos, e enobrecemo-nos. É que este tem os ingredientes necessários: é exclusivo e brota de uma afinidade que se move até à eleição; e faz com que se produza uma excursão até à intimidade da outra pessoa, com tudo o que isso implica: descobri-la e tornar-se participante nos seus desejos e ilusões.
Tal como no adulto, isto também se passa com a criança e o adolescente: ambos descobrem a vida com o passar do tempo, gradualmente, acostumando-se à sua complexidade e artfícios. Quer dizer, pratica-se uma espeleologia interior ou uma descida às zonas profundas da personalidade, com o intuito de ficar agarrado a elas. Contudo, nas relações light isto não é possivel, porque não há uma pretensão de conhecer o outro; porque é transitório, epidérmico e intranscendente.
Tudo o que comporta o amor verdadeiro traduz-se num gozo interior que é promessa de futuro e necessidade de compartilhar a vida, arriscando-a. Encontra-se uma pessoa que vale a pena, uma pessoa ante a qual um alguém se detém e com a qual põe a possibilidade de iniciar um caminho. Ou dito de outro modo: Também podemos descobrir terras inexploradas e saber o que há por detrás delas. Tudo isto é a atracção, pela qual alguém se coloca na disposição de jogar tudo numa cartada. Não é algo o que vemos mas alguém interessante e valioso que provoca em nós admiração. É um achado misterioso e fascinante que, quando consigo leva tudo por diante, nos apraz recordar como um desses momentos siderais da existência. "

O homem light - Uma vida sem valores,
Enrique Rojas




Come-me á bruta!
Colheradas de mamas
Beijos socados
Dedos que rasgam e penetram
Nódoas negras de desejo
Vapores escaldantes do Inferno
Bafejados num pescoço nu
Chapadas em ondas de pele
Que pede para ser açoitada
Sumos e cheiros que escorrem
Pelos ensopados de luxuria
Ruidos de bestas que arfam
Rubores que queimam o toque
Genitais que se devoram
Que se esquecem mas comem
Violações à lá carte
Desconhecidos e saciados...
Conscientes...
Culpa...
Lágrimas...
Pára...
Ama-me á bruta...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O Momento da Verdade na Era do Vazio

Terminou á poucos minutos o 1º de uma série de 13 que a SIC vai transmitir do seu novo programa e porta-estandarte na reentré televisiva, "O Momento da Verdade". A maior verdade, e talvez a unica, que me pareceu ter sido revelada, ainda que não uma surpresa, foi que no fabuloso mundo dos media, televisão na linha da frente (?!), sempre se pode descer mais baixo. E bom, podia referir-me ao militarzinho que tão "valentemente" confessou traír a mulher, achar a sua relação aborrecida, não gostar de brincar com a filha, entre outras "verdades", se não me parecesse claramente haver ali uma ridicula manipulação e encenação "Jerry Springer style".


De uma forma ou outra, encenação ou não, trata-se de um produto vergonhoso, que obviamente é mais uma vez copiado a partir do que vem de fora, e aqui palmas para o brilhante Director de Programação da SIC, Nuno Santos, não esquecendo a Teresinha, que em mais uma brilhante parceria com essa produtora de entulho que é a Endemol, conseguiram criar a nossa versãozinha deste "frankenstein" audio-visual.


Para quem queira procurar perceber e confrontar-se um pouco, não só com a questão que nos leva a tentar perceber como permitimos nós o sucesso (sim, porque não tenho duvidas que este será mais um exemplo!) de todo o lixo que diariamente nos é despejado, sob os mais variados formatos, pelos media, mas também, obter uma maior e mais abrangente visão do tipo de sociedade em que nos tornámos e para o qual todos contribuimos diariamente, sugiro " O homem light, Uma vida sem valores ", um pequeno, mas que, pelo que já li, me parece um "grande" livro, onde Enrique Rojas, catedrático de Psiquiatria em Madrid e director do Instituto Espanhol de Investigações, considerado em 1995 Médico Humanista do Ano em Espanha, nos fala do que considera ser o "grande vazio existencial resultante da falta de valores e ideais" que reina na sociedade ocidental. Garanto-vos, não é "coisa de intelectuais", é coisa de todos sobre todos e para todos!



" Qual é o seu perfil psicológico? Como poderia ser definido? Trata-se de um homem relativamente bem informado, porém com escassa educação humana, entregue ao pragmatismo, por um lado, e a bastantes lugares comuns, por outro. Tudo lhe interessa, mas só a nível superficial; não é capaz de fazer a síntese daquilo que recolhe e por conseguinte, foi-se convertendo num sujeito trivial, vão, fútil, que aceita tudo mas carece de critérios sólidos na sua conduta. Nele tudo se torna etéreo, leve, volátil, banal, permissivo. "